Crônica: Eleições 2020 - Tibau do Sul
Todo mundo quer um lugar ao sol. Assim se resume as campanhas eleitorais em boa parte das cidades brasileiras. A prefeitura é um lugar de influencia, status e de vantagens pessoais inegáveis. Cidades pequenas, cheias de problemas e com pouca verba para resolver questões básicas, oferecem salários altíssimos para seus agentes políticos e ações que visam promover a permanência deles no poder por anos a fio... Tibau do Sul não é muito diferente.
Típica cidade do litoral nordestino, cheia de belezas naturais, um histórico de atividades simples como a pescaria e a agricultura e onde poucos barões eram dono da maior parte das terras... Não é a toa que "Tibau" é o nome de uma família que tinha por aqui mas poderia se chamar "Galindo" ou "Costa" ou "Rodrigues" que sempre haveria alguém disposto a "romantizar" e chamar de " entre duas águas".
Este ano temos uma situação atípica: 4 candidatos. Dois deles são um ex-prefeito e o prefeito atual, um deles é o vereador mais votado das ultimas eleições com o apoio de outro ex-prefeito que impossibilitado de concorrer, indicou o filho como vice e outro é um novato meio amador que encorajado por uns amigos doidos (como eu) decidiu tirar a sorte grande tentando mostrar uma proposta diferente.
A política é uma arte que se faz de forma carnavalesca aqui na cidade. As pessoas gostam de gingles pegajosos, lambadinhas, fogos, barulhos, cores e carreatas. A política é uma época de muita animação, festejos, torcidas e comemorações antecipadas mas também de muita ironia, deboche e, desde os últimos anos, fake news e gravações comprometedoras.
A Covid-19 trouxe alguns atrapalhos para a festa. Mudou os calendários, forçou o isolamento e atrapalhou os mais incautos que acabaram demorando pra agir enquanto outros mais sabidos já mexiam os pauzinhos sabendo que uma hora ou outra tudo iria passar e a política iria voltar ao normal.
Eu moro aqui desde 2003, acho que ví a formula das politicas e dos mandatos se repetirem algumas vezes. O lugar ao sol é legal mas, sempre pode ser compartilhado com as pessoas amadas. O nepotismo é algo muito comum e corriqueiro. Uma falta de sintonia com as necessidades básicas também é comum fazendo com que os gestores gastem centenas de milhares de reais em festas e outras coisas inúteis. A falta de visão é outro mal que se repete, uma cegueira para o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável que persiste por décadas.
Não posso dizer que não ví melhorias ou tentativas de se melhorar como por exemplo o projeto de ciclovia que foi feito há uns anos mas que não saiu do papel, o calçamento de ruas sem saneamento básico, reformas e re-reformas de ginásios que são construídos e recontruidos após colapsarem pouco tempo depois, a construção de praças que ficam sem manutenção... Tudo que acontece de bom e que um gestor faz, não é continuado pelo outro e por ai vai.
Essa formula política típica de cidade de interior não acontece só por aqui obviamente porém, numa cidade que recebe a quantidade de turistas e de investimento estrangeiro que a nossa recebe, que tem um dos cartões postais mais importantes do Brasil e pessoas tão cultas entre seus cidadãos, já deveria ter aprendido a escolher bem seus representantes. A politica se modernizou, é feita via redes sociais mas na pratica, permanece a mesma e velha política da troca de favores, venda de cargos e jogo de interesses particulares.
Daqui a alguns dias, teremos a chance de escolher 1 entre 4 candidatos e de renovas a câmara de vereadores da cidade. Ao contrário dos anos passados, este ano não tive energia nem disposição para me engajar na cobertura política e muito mergulhar de cabeça numa chapa com a esperança de renovar algo. Estou numa luta com a vida e pela minha própria existência no momento porém, vejo que a subsistência desta cidade que escolhi para viver, esta por um fio.
Precisamos eleger pessoas que pensam no coletivo, no meio ambiente e que não queiram ficar milionários e construir patrimônios. Que estejam cientes de suas mortalidades, e que desejem deixar um legado positivo de sua existência e de sua gestão. Também precisamos de alguém que respeite o esforço ou a tentativa de seus antecessores, que continuem o que ficou parado e prossigam com as ideias que deram certo independente de quem as tenham criado.
Tibau do Sul é um pedacinho do Brasil que tem uma alma global. Somos uma sociedade diversificada, cheia de artistas, poetas, músicos, homens do mar, naturalistas, ecologistas, escritores, compositores, biólogos, autores... Não é possível que votemos de forma tão superficial.
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